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13.6.08

Sentimento em Português


A saudade faz parte da vida de todos. Quem já não sentiu ou sente essa coisa que aperta e que nos acostumamos a chamar de saudade? Tanta gente já a descreveu, comentou, falou, viveu em tantas línguas, em tantos textos, de tantos jeitos, tantas maneiras distintas de retratar o mesmo sentimento, sentimento em português.
Mas não é que deveria existir uma gradação para o que chamamos de saudade! Sim porque, somos tão habituados a falar sobre esse sentimento que acabamos por banaliza-lo. Chegamos ao ponto de dizer que temos saudade de qualquer coisa e dessa forma, conseguimos viver muito bem sem aquela coisa de que temos saudade.
Deveria-se então, graduar a palavra saudade assim como graduamos a palavra amor. Ama-se de tantos jeitos possíveis! Um amigo, um irmão, um filho, um companheiro, uma história, um animal, um sabor, uma fruta, uma cor. Amamos tudo isso e de diversos maneiras diferentes. Daí eu só posso concluir que também sentimos saudade de muitos e muitos jeitos e que esses jeitos devem ser diferenciados, reconhecidos e justiçados.
Eu tenho saudade da menina que um dia fui, de um olhar que um dia eu tive. Tenho saudade do meu jardim e das fadas em que eu brincava. Tenho saudade de alguns amigos que se perderam no meu caminho, de algumas situações que já vivi, de gente que não vejo há muito tempo, de sentimentos que um dia tive, de cheiros que já senti. Mas isso é apenas saudade. Do tipo que aperta lá no fundo quando pensamos em algumas coisas. Mas um apertozinho com o qual podemos conviver e do qual muitas vezes nem tomamos conhecimento.
Mas tem um outro tipo de saudade e esse sim merece justiça. Aliás, mereceria um outro nome até, para ser realmente diferenciado. É aquele tipo de sentimento que dói. Dói ao ponto de se sentir dor física. A ponto de não se conseguir respirar às vezes, a ponto do mundo inteiro rodar e ficar escuro, a ponto de sentir frio, por fora e por dentro. É uma falta absurda. Que dilacera, que desorienta. Que deixa a gente infeliz.
Sabe, às vezes temos total consciência de algumas coisas. Racionalmente. E aí fazemos listas de prioridades e tentamos nos convencer de conveniências e necessidades. E tentamos, de verdade, todo dia, a todo momento, ignorar o grito surdo que brota de cada inspiração, de cada piscar de olhos, de cada gesto. Tentamos tocar a vida. Mas às vezes acordamos no meio da noite com a certeza de que aquilo é impossível e que não dá mais pra fazer de conta que não dói, simplesmente não conseguimos lidar com aquilo de um jeito "racional" e "razoável".
E nessas horas, por mais que não dê pra apagar a tristeza dos olhos, tentamos sorrir e fazer de conta que estamos bem. E quando nos perguntam o que temos, respondemos modestamente: "ah, é saudade", daquele jeito prosaico. E temos vontade de morrer em seguida, porque calamos mais uma vez o que tinha que ser dito.

1 comentários:

ET CETERA disse...

quase chorei!
vc me surpreende, e é por isso que sempre vale à pena!
amei.
amo.